Deitou-se com aquela sensação chatinha de que algo estava mal. Mas que não sabia bem o que era. Nem se preocupou muito: o dia tinha sido demasiado longo e cansativo para isso! Caiu naquele sono pesado e difícil de quem tem muitos pesadelos. Não acordou durante a noite, mas também não descansou. O toque do despertador encontrou-lhe umas olheiras fundas e cinzentas de quem não dorme há muitos dias. Não houve corretor suficiente para operar o milagre… E a sensação estava lá à mesma, escondida novamente pelo cansaço.
Ia passar, passava sempre…
O dia passou como todos os outros, com as mesmas questões de trabalho. Os mesmos problemas. Sim, porque os problemas são sempre os mesmos, só mudam mesmo de proveniência ou natureza ( e isto é suficientemente ilógico para ser verdadeiro!). As dúvidas foram as mesmas, porque ainda ninguém (nem ela própria) se tinha dignado a tentar arranjar-lhe respostas. Chegou o final do dia e voltou para casa. E desta vez a sensação atropelou-a sem ela esperar. Foi subindo, subindo (agora de onde vinha é um mistério, seria das entranhas? - seja lá isso o que for) até que se condensou na garganta. E ela gritou! Gritou como se disso dependesse a sua vida. Gritou, chorou e voltou a gritar. Em público. Com transeuntos admirados a olhar. Poucas pessoas a tentar ajudar. Até que uma criança (sempre as crianças e aquela sinceridade estonteante) perguntou “mamã, que se passa com aquela srª, está triste?”. E ela percebeu que era precisamente isso! Levantou-se do chão, passou pela criança e lançou-lhe um grande sorriso. Obrigada! disse ela e o menino percebeu (os miúdos às vezes são tão mais espertos que os adultos) e sorriu-lhe de volta. “boa sorte” disse ele, e a mãe, que não tinha percebido, puxou-o para mais perto, para o afastar daquela louca que ali estava a passar.
De repente, aquela sensação má continuava lá, mas já tinha nome. E isso dava-lhe um novo ânimo de encarar a situação.
Na manhã seguinte, quando acordou, tinha uma andorinha pousada no umbral da janela. Só podia representar uma coisa: a Primavera chegara, havia um recomeçar que também se passava dentro dela.
Muitas vezes o primeiro passo para a resolução de um problema passa por perceber qual é efectivamente o problema. E a partir daí torna-se mais simples resolvê-lo!
E por isso é bom guardar dentro de nós aquele bocadinho de criança que nos ajuda a perceber o que está mal, para que esse mal que não identificamos não nos vá corroendo até só sobrar ele e nada de quem éramos antes.