Outsider
Sentada a ouvir música, numa qualquer estação de comboios.
O vento frio que corre não pára por encontrar quaisquer barreiras de vidro e encontra quem espera encolhido nos casacos de Inverno.
Do outro lado da linha, uma garota ouve o seu MP3/4 (?) e tecla freneticamente no telemóvel. Nada de novo ou estranho. E chegam os outros membros do bando. Miúdos como ela, com phones nos ouvidos, tlms acoplados às mãos e o ar de quem tem o Mundo a seus pés. E ali ficam, naquela unidade indissociável que é “o grupo”.
E chega o rapaz da mochila cor de laranja. Sozinho, sem phones e sem tlm, pelo menos visíveis.
Já o tinha visto antes, afastado daquele bando como se não quisesse fazer parte dele. Mas hoje ficou ali, suficientemente perto para fazer uma aproximação mas tão distante como sempre.
E quando um dos do bando lhe esticou a mão ele sorriu e notou-se que, pelo menos hoje, queria fazer parte. E não ficar só num banco frio.
Mas o hábito levou o rapaz dos phones para junto do bando e a mochila cor de laranja ficou à mesma sozinha, mãos nos bolsos e olhar baixo. Não implica triste ou deprimido, mas hoje, talvez apenas hoje, ficou só, afastado de si e dos outros.
…
Quando, por opção ou contingências de nós próprios, nos isolamos, é muito difícil inverter esse estado. E mesmo naqueles dias em que o peso do mundo parece recair sobre os nossos ombros, não há opção senão suportá-lo, pois voluntariamente afastamo-nos de todos aqueles que nos poderiam ajudar a segurá-lo.
…
Há muito tempo que não via tantas muralhas à volta de alguém… e era só um miúdo…