Neste fim de tarde de domingo resolvi sair da toca. Apanhar ar. Viver, se assim lhe quiserem chamar…
Por esse mesmo motivo, é com uma vista privilegiada sobre o rio Tejo que escrevo estas linhas…
O Sol põe-se ao longe, no entanto a luz do dia, em tons avermelhados, reflecte-se na superficie calma da água. Os barcos mal ondulam, e penso para os meus botões que estar sentada ou deitada num daqueles barquinhos seria agora semelhante a uma cadeira de baloiço muito suave, que nos embalaria até adormecermos ao som da passarada e da água a bater devagarinho no barco…
Mas esse é um outro devaneio, para quando eu efectivamente estiver dentro de um barco…
Mas agora estou no meu FU, reclinada no banco com o computador ao colo. Estas novas tecnologias… portátil e internet móvel… o que mais se pode pedir?
Gostaria de escrever um pouco sobre o festival de tunas para o qual a Susanita me “arrastou” ontem… Confesso que lhe estou muito agradecida por isso! Além de ter finalmente perdido o preconceito idiota que tinha para com as tunas ADOREI!!! Aquela estudantina ganhou uma nova fã!! Mas agora, a olhar para o rio e a aproveitar estes últimos minutos de luz… não me apetece…
Porque aqui, mais do que em qualquer outro lugar, sinto-me na minha terra. Passei pelas lezírias, com os campos cultivados ou a serem preparados para tal. E a calma foi-se instalando. E cheguei aqui, expoente máximo dos meus momentos de calma. Porque neste lugar, e como estou, consigo ouvir os meus pensamentos, apaziguados pela calma deste ambiente.
Não e grande segredo que por vezes preciso de parar e pensar. Assentar ideias e pensamentos. Não que resolva grande coisa na maior parte das vezes, mas normalmente quando o consigo fazer bem, os resultados são relativamente positivos e a minha sanidade mental ganha uns pontos. E até começo a ponderar fazer coisas tão estranhas como sair ou ver pesssoas!
Estou a escrever sem olhar muito bem para as palavras. A aproveitar os momentos que aqui se passam e a tentar partilhá-los… Não é fácil! Esta semi-obscuridade que começa a cair, aliada a toda a envolvência, para mim está a ser quase mágica, porque estou com a predisposição para que assim o seja. Mas para alguém que não esteja deve ser difícil…
Ao meu lado está um carro estacionado e lá dentro está um casal que poderá ser classificado como idoso. Quando cheguei o Sr. lia um jornal e a Srª uma revista. Agora ambos olham para o rio, a ver o entardecer chegar. Não falam um com o outro, mas não parecem aborrecidos. Gosto de acreditar que vieram para aqui ter o seu momento zen, tal como eu, mas com a diferença que vieram juntos, e estão suficientemente bem um com o outro para o gozarem em conjunto, mesmo que não falem sobre isso. Porque há momentos de silêncio em conjunto que não querem traduzir nenhum desconforto ou mal estar, mas sim uma cumplicidade gritante, que não precisa de ser traduzida em palavras proferidas.
Ao longe, no pontão que dá acesso aos barcos, vejo uma família a tirar fotos. Enroscados nos casacos e a encolher-se o mais possível, lá andam de um lado para o outro a posar e a guardar momentos para a prosperidade…
Parece cliché, eu sei, todo este amor por aqui… ou talvez seja eu que esteja disposta a ver amor para onde quer que olhe. Porque eu sei que ele existe, e se eu olhar com atenção até pode ser que eu o veja…
Não me imagino a ser como aquela família, ou aqueles velhotes, mas nem por isso gostava. Deve ser bom ter alguem com quem partilhar estes momentos… Por isso, a todos aqueles que tem: aproveitem cada instante como se fosse o último partilhado!!
Agora vou olhar com cuidado e tentar perceber qual é o instante exacto em que a luz se vai…
Até…